Quando não tinha carro, achava que teria uma vida melhor quando o tivesse. Estudei no bairro mais boêmio do qual tenho notícias: o Rio Vermelho. O pôr do sol visto de lá é perfeito, mas não quando se está em pé no ponto de ônibus há duas horas. Um dia chorei e não foi de emoção por presenciar o horizonte ficar lilás. Míope e vaidosa que sou, não usava os óculos gigantes que minha mãe me impôs, e, depois de horas caminhando junto com a sombra do poste, só percebi que o coletivo que se despedia era o meu quando notei a quantidade de letras fugindo de mim. O que fazer? Sentar e chorar não dava, era rua. Chorei em pé.
No dia em que peguei meu 1.0 na concessionária, pensei: “Enfim, comprei meu direito de ir e vir”. Realmente, posso escolher se ir ou vir pelos congestionamentos que eu quiser na cidade. Antes eu ia ao cinema duas ou três vezes por semana, agora a quantidade continua a mesma, mas a periodicidade é mensal.
De uns tempos para cá, eu passei a vir para casa, deitar e ver um filme no DVD ou um seriado de TV. Para ficar perto do trabalho – e por várias outras circunstâncias – mudei-me praticamente para o lado da senzala. De carro, mesmo no congestionamento mais violento, não gasto 15 minutos entre o fechar a porta e bater meu ponto. Mas como o destino é cruel, descobri que moro no ponto de ônibus.
Relaxem. Não virei moradora de rua. É que resido no meio de uma ladeira fuderosa e que bem em frente às minhas janelas tem a entrada de um bairro movimentadíssimo. Sabe o que acontece quando os carros, ônibus, caminhões e motos querem entrar nesse bairro? Eles têm que parar – no meio da ladeira – e pedir passagem aos motoristas educados na pista oposta. Ou seja: ninguém pára nessa porra e todos os veículos fazem meia embreagem na porta do meu ouvido!!!!
Sempre brinco dizendo que se eu levantar a mão na janela o motorista pára para mim.
Passei a odiar a vida na cidade. Quero sombra e água fresca. Lá, nos “Canfundó do Judas” – cidade imaginária que, se existir, deve ser beeeeem longe –, já deve ter Internet e eu posso baixar todos os filmes, saber de todas as news em tempo real e ainda posso vir duas vezes no mês comprar meu “Victória's Secret”, pois também tenho o direito de ser uma roceira cheirosinha.
A dificuldade agora é que viver bem no meio do mato exige muitos zeros à direita na conta bancária, o que me obriga a viver na cidade por mais uns 100 anos até juntar o necessário para montar minha rede em baixo de uma árvore.
