Estava super ansiosa para conhecer esse lugar. Acreditem: sentir o peso da água batendo na cabeça, numa cachoeira, recarrega todas as energias.
Eram 6h da manhã do sábado. Minha amiga que estava indo se encontrar comigo sofreu um acidente na estrada. O carro capotou e ela teve duas fraturas na coluna. Desesperei. Comecei a ligar para o plano de saúde para ver hospitais na região, ambulância, etc. Primeira dica: se puder, evite viajar à noite. O dia facilita muita coisa numa hora dessas. Não haviam hospitais capacitados para atendê-la na região e um amigo conseguiu sua remoção até a capital. Fez uma cirurgia na coluna e está bem. Graças a Deus.
Não consegui dormir mais e tinha que estar pronta para começar a trilha às 8h. Sem fome, fui para o desejum. Como tinha uma caminhada longa, e mastigar logo cedo não é fácil para mim, optei por comer frutas, iogurte e leite. Tinha uma fruta meio verde meio madura. Provei e gostei. Comi muito e com gosto. Pensei: “Geração saúde. Êaaaaa!!!”. Segunda dica: não mude radicalmente seus hábitos alimentares, pois o corpo sente e, o pior, reage.
Pegamos o asfalto. 44 km de estrada de barro, até chegarmos em uma fazenda, e mais 3,5 km caminhando até chegar à Cachoeira do Mosquito. A casa seria nosso ponto de apoio no retorno para banho e almoço. Chegando lá, uma senhorinha muito fofa tinha preparado um suco de maracujá do mato. Achei a cor verde extrato de folha linda e tomei, pelo menos, meio litro. Era bom demais!
Câmera a postos, demos início à caminhada. Paramos algumas vezes para fazer algumas imagens, pegar algumas entrevistas com o guia e, nesse meio tempo, meu estômago começou a revirar. Eram gases. Ao ar livre não tem problemas, pensei. Seguimos com meu estado gasoso.
No meio do mato descobrimos uma prainha de água cor avermelhada. Paramos para outra gravação. O guia explicou que a areia era branca porque um dia ali já tinha sido mar e a água era daquela cor devido a uma substância da raiz das plantas que tinha efeito laxante. Nem passei perto da água. Vai que ela entranha na minha pele e provoca uma situação. Mas só de ouvir a palavra L A X A N T E, meu intestino deu um nó de marinheiro.
Percebi que a fase gaseificada da brincadeira tinha acabado e que a qualquer momento o estado das coisas poderiam se tornar mais sólidos. Comentei que estava com dor de barriga e me mandaram fazer uma parada rapidinha no mato. Me recusei. “Uma lady não vai ao mato. Posso esperar”. A galera ainda me abusou dizendo que eu tinha bebido água da prainha econdido. Dica número 3: ouça os mais experientes.
Ainda faltava pouco mais de 1km para chegar ao destino. Para minha sorte, era uma descida. Para baixo, todo santo ajuda. O caminho foi ficando apertadinho e mais íngreme. Chegou uma hora que só conseguíamos descer segurando nas árvores. Com equipamento o trabalho dobra, mas já estávamos ouvindo o barulho da queda d’água. O eco dos nossos gritos mais pareciam alguém respondendo. Alguém, dentro de mim, também queria gritar.
Minha fase empolgação já tinha mudado para preocupação. A fisionomia estava visivelmente alterada. A vontade estava virando dor e... Chegamos! Esqueci tudo, gravei a parte final da matéria e passei uns 15 minutos tomando banho de cachoeira. Como disse, é revigorante. Nos faz até esquecer os problemas, alivia as dores, viver vale mais a pena. O mundo é lindo. A Chapada Diamantina é linda. Hora de voltar.
Se para baixo todo santo ajuda, para cima o diabo cutuca. Quando comecei o caminho de volta meus metrinhos de intestino me lembraram que eles existiam e tinham vontade própria. Sozinhos, eles deram mais um nó e eu me agachei de dor. Ficar agachada não dava, era muito propenso a um resultado óbvio. Levantei com a mesma rapidez e comecei a gritar. “Ai, ai, ai, ai”. O pessoal ficou super preocupado e insistiu para eu usar o mato. “Não, não, não, vamos nessa, eu agüento”. Franzi a testa – ninguém contesta alguém com cara carrancuda –, liguei um motorzinho nas pernas e fui.
Na volta, o sol tinha esquentado e eu suava um suor frio, pegajoso. Sentia cólicas abdominais que iam e viam como contrações de um parto. Quase foi. Eu concentrei na dor, fiz respirações contadas, me distanciei do grupo e andei com uma vontade que nunca tinha tido na vida. Vez ou outra as contrações vinham e eu tinha que parar, meus olhos enchiam de lágrimas, eu respirava e continuava.
Quando cheguei à fazenda, o guia – que tinha chegado antes de mim – veio cheio de dentes brincar, perguntar como eu estava, se tinha gostado da caminhada. Meu olhar foi tão, mais tão, fulminante que ele apenas segurou minha mão e me guiou até a porta do banheiro. Ele devia ter mandado a galera evacuar a área. Era meu estado sólido se concretizando.
Fiquei, pelo menos, dois quilos mais leve. Agora eu já não transpirava, meu suor saia dos poros como se eu fosse um chuveiro ambulante. Era minha fase líquida. Eu estava me tremendo. Liguei o chuveiro e fiquei uns 5 minutos me recuperando. A água batia na cabeça e eu lembrava da cachoeira. Aquela vozinha aqui dentro perguntava: se o homem inventou a fotografia e eu já tinha visto a cachoeira, que inferno eu fui fazer lá?
Refeita, me arrumei e agora meu dilema era outro: o pessoal almoçava lá fora enquanto eu derrubava o muro de Berlim ali dentro. A poeira, com certeza tinha subido. E a vergonha? Como havia dito, nenhum ser humano normal será capaz de dizer nada a alguém com cara carrancuda. Saí do banheiro com fisionomia de monstro e fui tomar um ar.
Dica número 4: nem sempre vale a pena ser uma lady. Leve papel higiênco para o mato e seja muito mais feliz. Ninguém comentou nada, mas eu ri horrores quando descobri que a fruta meio esverdeada do café-da-manhã era mamão.
Mais algumas fotos da viagem. Pela fisionomia, sem dores de barriga.
5 comentários:
Gostei da ideia.
Tem algo que vc queira do Japão?
Vou anotar o seu e-mail.
O meu está no blog mesmo, antes do meu perfil.
bj
Nossa....apesar dos contratempos aí na sua caminhada, parece ter sido um dia bem produtivo e legal não? Adorei o relato....e essa cachoeira deve ser linda não? Deve ser fantástica de perto...vcs parecem tão pequeninos na foto..rsrsrs....
E isso de experimentar coisas novas antes de fazer uma caminhadaas dessas não é muito aconselhável né? rsrsrs....adorei sua viagem, viajei junto..rsrs...
Que lindo lugar!!
Ameiiiiii
bj
Tô imaginando a sua cara de lady carrancuda doida por um banheirinho limpinho. kkkkkk, ninguém merece!
bjs!
afff, acho q todos já passaram por coisa parecida em algum momento...
Essa cachoeira é linda d+...
Postar um comentário