sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O BESOURO MANGANGÁ

Acho que já falei sobre o filme Besouro algumas vezes aqui no blog. É que sou apaixonada por cinema e o lançamento de bons filmes, principalmente os brasileiros, me deixa eufórica. Quando digo que sou cinéfila não é apenas porque gosto de me arrumar e ir comer pipoca no escurinho. Amo o fazer cinema. Observar como a cena foi filmada, os planos selecionados na edição, o tipo de lente que foi usado, a produção do cenário, a trilha sonora, o texto, a interpretação dos atores, a montagem, o roteiro. O cinema é arte não apenas pela história final, mas por um todo que compõe a obra.

Para os curiosos, posso adiantar que Besouro, no conjunto, é um filme bom e vale a pena ser visto. Vi a pré-estréia na última quarta-feira, dia 21/10. A estréia será dia 30/10, próxima sexta-feira. Em uma hora e meia, ele traz ao grande público a história de um personagem, de uma luta, a mitologia e um cenário tipicamente brasileiros. Isso, por si só, já é um mérito.

Para quem não conhece a história farei um brevíssimo resumo. Besouro foi um capoeirista que era um misto de vingador e desordeiro. Lutando pelos interesses dos negros, e seus, ele tocava o terror com os donos do poder econômico e político. Depois da libertação dos escravos, algumas vezes os coronéis se recusavam a pagar pelos trabalhos nas usinas de cana-de-açúcar. Certa feita, reza a lenda, ele segurou o coronel pela camisa e o obrigou a efetuar-lhe o pagamento. Era avesso a policiais, que não conseguiam pegá-lo, e lutava capoeira com a proteção dos orixás. Tinha o corpo fechado. Essas, e várias outras histórias, são contadas nas rodas de capoeira através dos cânticos.

Para mim, o primeiro problema do filme acontece devido à mistura de cenários. A história, real, de Besouro se passa em Santo Amaro da Purificação e o filme foi, em grande parte, filmado na Chapada Diamantina, região completamente diferente e densamente povoada por exploradores de ouro e diamante, e não escravos. Em busca de uma fotografia mais atraente, a locação real foi substituída. O filme é ruim por isso? Não. Continua sendo bom.

O diretor do filme optou por preparar um não-ator, que joga capoeira muito bem, para representar o Besouro. O menino é um excelente capoeirista, mas está longe de ser ator. Sua voz, ao que me pareceu, foi dublada, e algumas cenas ficaram sem a expressão corporal necessária para imprimir a emoção vivida pela lenda da capoeira. Em compensação, a expressão facial dele favoreceu às cenas mudas.

Estudamos, desde a escola, a mitologia grega, mas desconhecemos totalmente a história dos Deuses africanos que foram trazidos para o Brasil, os orixás. O problema, para muitos, é que tudo que é tipicamente afro-brasileiro (nossa origem) não presta e, o pior, é endemonizado. Enfim... Não estou aqui para falar de religião, mas um dos méritos do filme, para mim, seria esse. Digo seria porque não acredito que a obra conseguiu passar a importância do candomblé para os ex-escravos, que inclusive agradecem aos orixás pela sua libertação. Mas, não há como negar, as cenas em que Besouro recebe a proteção dos orixás são lindas. A fotografia é perfeita, a luz foi usada a favor das filmagens e o cenário (embora não represente o ambiente real) foi muito bem montado.

O que me incomodou muito em Besouro foi o roteiro sem amarração e o texto do filme. Esperei, com ansiedade, uma luta ápice e não achei. Busquei entender porque aquele capoeirista foi o escolhido e, no filme, não tive resposta. Tentou-se falar de muita coisa ao mesmo tempo – capoeira, candomblé e escravidão – e o produto final não foi denso o suficiente para validar a obra. Fora o texto dos atores que não representam o linguajar dos recém libertos escravos. Teve até escravo com sotaque carioca! Para equilibrar, o capataz, Noca, tem uma atuação exuberante e suga toda a atenção quando aparece. Você acredita no ódio que ele sente por Besouro, mas não coloca fé no sentimento dos escravos.

Depois disso vocês devem achar que eu não gostei do filme. Não creiam. Besouro é um longa bom e, creio, vai cair no gosto popular. Quem sabe em breve não poderemos conhecer outra lenda da história brasileira através da tela dos cinemas? Só espero que orçamento do filme seja menos gasto em efeitos visuais – a verba foi de leis de incentivo fiscal - e a atenção esteja mais voltada para o conteúdo da obra.

Esta é a minha opinião, que também não é unânime, mas é minha. Espero que vejam e depois voltem para comentar.

10 comentários:

Desabafando disse...

Acho que vc daria uma ótima crítica de cinema...rsrsrs...adorei o texto.

Desabafando disse...

tem selinho pra vc no meu blog. Bom fim de semana!

Cadinho RoCo disse...

Já vi algumas cenas do filme Besouro e gostei muito.
Cadinho RoCo

Elisa no blog disse...

Será que vai passar no Japão? Tomara.

Se vc quer ver o que tem em sex shop, vai lá na lojinha que está no meu post, se chama "Love Piece Club" é tudo bonitinho cor de rosinha.

Queria ler algo de Machado de Assis, tipo Dom Casmurro, será que tem na biblioteca virtual que vc falou?

bj

Anônimo disse...

Besouro sem asas: Filme tem diálogos fracos e história confusa


Ivan Dias Marques | Redação CORREIO | Fotos: Divulgação e Guto Costa
A decepção é proporcional à expectativa. Essa é a tônica de Besouro, longa-metragem de João Daniel Tikhomiroff. A história do capoeirista baiano Manoel Henrique Pereira (1897-1924), que virou lenda nas rodas e nos cânticos da arte-luta pela agilidade e capacidade de fugir dos inimigos (nos causos populares, Besouro Mangangá voava), foi transformada em um filme com orçamento de R$9 milhões, efeitos especiais hollywoodianos e equipe técnica de ponta.

Besouro era o preferido do público para ser o filme brasileiro indicado ao Oscar (quem acabou escolhido foi Salve geral, de Sérgio Rezende) e seu trailer teve milhares de acessos no YouTube. Infelizmente, por mais que se tenha boa vontade, ele peca em vários aspectos. O principal deles é aquele que todo filme que tem pretensão de ser bom precisa: um roteiro competente.


Apesar de ter bons efeitos, ‘Besouro’ peca, sobretudo, pelo roteiro fraco

Os diálogos são fracos, falta consistência nos personagens e a construção da história é confusa. Os efeitos especiais (bacanas na maioria das vezes) e a fotografia de Enrique Chediak se misturam a uma direção de arte falha e a má utilização dos recursos visuais comandados pelo chinês Huen Chiu Ku (o mesmo de Kill Bill, O tigre e o dragão e Matrix).

A confusão de sotaques baiano, pernambucano e carioca (sim, carioca!) e a feira popular inverossímil, por exemplo, são pontos fracos. O ator principal, o capoeirista baiano Ailton Carmo (que não tinha experiência em dramaturgia), temdificuldade nos diálogos, apesar de todo seu esforço. Nas cenas de luta e quando contracena com os orixás - algumas das melhores sequências -, ele se sai bem.


Gilberto Gil, na foto comRica Amabis, Pupilo (Nação Zumbi) e o diretor João Daniel Tikhomiroff, fez a música-tema do filme

Mas, mesmo com defeitos, Besouro não é uma lástima. Temboas passagens, como a que Besouro e Dinorá (Jéssica Barbosa) misturam amor e capoeira, a luta entre o personagem principal e Quero- Quero (Anderson Grillo) e qualquer uma que envolva Noca de Antônia (o excelente Irandhir Santos). A trilha sonora, com músicas de Gilberto Gil e Nação Zumbi, é marcante.

Apesar de ser um diretor estreante em longa-metragem, Tikhomiroff (carioca radicado em São Paulo) é premiadíssimo na publicidade e, por isso, esperava-se um cuidado técnico maior com uma história que envolve uma lenda tão rica e que é motivo de orgulho baiano como o Besouro Mangangá.

Assita o trailer de Besouro:





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Apolion disse...

Uau...
Assisti o filme ontem! Estréia... E vim ler um pouco, pois achei bom, mas muito fraco! E li o seu comentário... E Putz... Falou tudo que senti!!
Você não tem medo de deixar pessoas apaixonadas por você pelo Brasil inteiro escrecendo assim não?! ():-P

Muito bom...

Bjos...

Luciana Guimarães disse...

Quem me dera... Obrigada!

Adrenalina Capoeira Angola disse...

Se o filme realmente tivesse sido baseado na historia real de Besouro Mangangá . Teria sido muito mais rico e istrutivo. Mas descabaram para uma ficção meio sem pé nem cabeça.

Anônimo disse...

Oi Dona Lu, visando fazer uma homenagem ao Besouro em meu blog acabei encontrando o seu e vendo que a Sra adora ver fimes Brasileiros, convidou-a a ver o Filme Cordão de Ouro caso ja não tenha feito. Fico grato pela opinião do Sr Ivan do Correio, (ja que não vi o filme)muita concisa por sinal. Grato pela visita
Leiteiro
http://professorleiteiro.blogspot.com.br/2008/02/cordo-de-ouro-o-filme.html

Fernando Faria disse...

Muito bom o seu texto! Assisti O Besouro novamente esses dias, para me lembrar exatamente dos elementos positívos que você citou. Fiz um pequeno post no meu blog, bem básico e simples: http://fhlf.blogspot.com.br/