domingo, 3 de maio de 2009

MEU NOME É NARCISO

Tenho tentado ser diferente para melhor agradar, mas não consigo. Só sei ser eu, não outra. No máximo, metade outra e metade essa que penso ser eu. A outra é aquela que eu queria ser sempre. A do altar, aquela que só sou de vez em quando – e isso com muito esforço. A garota – ainda não digeri a ideia de não ser mais garota!!! – domada, sorridente, legal, precisa nas intenções, delicada, contida, calma, carinhosa, leve como a brisa. Quando sou essa, me sinto nos braços da paz, porém, engarrafada, entalada, cozinhando em uma panela de pressão, quase um gênio da lâmpada histérico, ansiando o menor roçar para sair. Ou, melhor e ao meu estilo, explodir e, de brisa, virar um tufão, uma tempestade. Sendo eu, sou o oposto de tudo isso. Calma é a química prometida no tarja preta que tomo diariamente para conseguir viver em sociedade, principalmente quando tenho que lidar com os “eus” alheios, com pessoas que acham – acham não, acreditam – ser o centro do universo. Tipo uma estrela maior que ilumina a tudo e a todos e tem absoluta convicção de que a vida depende do seu brilho. Nesses momentos, meu vulcão entra em erupção, a lava borbulha e... a outra entra em ação e me trancafia num compartimento de análise até a chuva passar. É incrível como conheço pessoas sem noção ao ponto de tornar um favor uma obrigação. Certa vez uma colega disse: “Não gosto desse seu sapato”. Minha resposta foi no automático: “Como ele é meu, quem tem que gostar sou eu e você não me perguntou o que eu achava do seu antes de calçar”. Grossa? Fui até delicada. Minha resposta foi à altura da falta de bom senso dela. A outra, que fica aqui dentro, nem precisou se achegar. Diga-se de passagem, tratava-se de um sapato Maria Bonita. Há quem não goste e não compre, mas se eu gosto, compro e uso, por que tenho que ouvir, sem ter pedido, uma opinião que não me interessa, de alguém sem importância que acredita ser balizadora de ideias? Depois de ter meu espaço invadido, não posso dizer o que penso para não ser malvista? Por quê??? Para não ofender? A pessoa não percebe quando está abrindo os braços em excesso e invadindo o quadrado alheio? Ou será que eu é quem deveria explodir e fazê-la perceber que não é o astro-rei? Falo no singular, mas se trata de um plural. Um plural infinito elevado ao cubo. O sangue ferve, queima, evapora, escorre e volta ao seu curso normal. Nessas horas, aflora a outra, que se esconde aqui dentro e finge ser eu. É o equilíbrio natural das coisas. Acho que, na verdade, ela é minha salvação. Porque se eu fosse eu o tempo todo, não viveria. Mas o que é viver? É ser eu, a outra, ou essa mistura indissociável que somos? Não tenho dupla personalidade. Relaxe. São apenas questões freudianas de uma mente feminina em período de TPM. Minha editora (sim, sou chique, tenho uma editora “voluntária”), comentou sobre um livro que afirma que as pessoas que alimentam blogs não noticiosos são narcisistas, precisam de atenção, desse espaço para chamar de seu, dessa atenção que você dá, nesse exato momento, a mim. Não me importo. No momento em que penso na resposta a essa provocação, a outra vem chegando devagarzinho, toma conta dos meus dedos e me manda embora.

3 comentários:

Rafaela disse...

Sensacional, um vulcao em verso e prosa. Adorei o texto...
Como já dizia Raul, eu calco é 37!!! "Vou escolher meu sapato e andar do jeito que eu gosto."
Cada um calca o que quer, pensa o que tem vontade e deve dizer o que acredita. Só nao consegui brigar com voce, escreve muito bem para que eu brigue por enquanto. kkk
Rafa

Alexsandra Moreira disse...

Hohohoh, a cada dia vc fica mais doce...

Estou gostando dos textos velhinha.

bj

M. disse...

Eu fico fula com pessoas que se acham donos da verdade e tentam desesperadamente nos impor teus gostos e conceitos.

Vc deu uma boa resposta e mto necessária. rs

Bjos.